Talvez,
eu caia.
Despeje,
um eu.

Processo,
avesso,
possesso,
refeito.

Saiba,
que sei.
Se coube,
não sei.

Se foi,
já vindo,
E foi,
sorrindo.


Em um segundo

08jan14

poemas perdidos, no tempo passado
das manhãs recém nascidas,
do calor do sol que mal apareceu.
Se vai tempo que o tempo já levou
e eu esqueci do dia que te conheci.

Os sorrisos eram tímidos,
e os olhos, mal abertos.
Das manhãs recém nascidas,
eu sonhava com os abraços
pra viver distante dos teus.

Amor, passado. amou e se foi,
uma criança, que éramos, quando
não fomos o que desejávamos,
e agora adultos desejamos ser,
aquilo que não foi.


Os dedos tilintavam qualquer coisa no volante do carro. O que será que ele anda  pensando tão concentrado, será que tá pensando em mim? Em como me falar algo que lhe incomoda? O que será? Esse silêncio todo me mata de uma forma que eu não consigo me esquivar, ele me prende dos pés à cabeça. Estou  tentando me lembrar agora como é que foi que isso tudo começou, onde  foi que deixei as coisas correrem sem rumo e sem que eu tentasse parar.
Lembro  que eu o conheci meio assim, falante, calado. Por vezes ele ria. Outras  falava com certa grosseria. Era o jeito de ser, meio brincalhão, com  pensamentos normalmente complexos, emaranhados sem pé nem cabeça, que te  davam um nó, ou tão simples que o riso não cabia, em si. Mas esse eram  momentos raros, quando o sorriso dele próprio iluminava tudo ao redor  que era dor que causava de tão lindo, tão mais puro que o normal.
E então em tom de Si bemol menor, todo o mundo escurece quando tu sequer tem me olhado mais, ou me dado um pouco de atenção.
Depois  de algum tempo ele ficou mais atrevido, apesar de ser desde o início,  daquele jeito dele. Mas não tinha se mostrado por inteiro, guardava um  pouco para o outro dia, sempre. Era como uma caixinha de surpresa, até  que me deu um jardim inteiro em preto e branco inclusive com algumas ervas daninhas perdidas entre os altos girassóis. Acreditei que o tanto que era cuidado o jardim eu receberia o mesmo, acho que me enganei.

Ainda lembro do dia que fomos ao casamento, não nosso, de amigos dele. Ainda não era nada certo entre a gente, mas a considerar pelo convite, de companheira para o casamento, era de se imaginar que as coisas estavam ficando sérias. Naquele dia eu o vi bem mais arrumado que de costume, as roupas, camisa, sapato, calça, parecia um homenzinho, me pegou no portão, “acalmou” minha mãe, abriu a porta do carro pra mim. Estava tudo assim, tão lindo. E chegamos lá, nem sabia direito como me apresentar, às vezes era Clara, outras minha menina e tinha gente pra apresentar, eu pensando que nunca ia acabar, e quando é que nos sentaríamos, e o que eu ia fazer no meio daquele montareu de gente. Mas ele tava alí do meu lado, isso facilitava as coisas. Eu achei que era única que tinha uma avó que não era de sangue, mas era minha avó. Mas ele não, além de avó tinha mãe e irmão.

Certo dia, me disse, — Vamos fazer um piquenique! E começamos a ver fotografias, de vários, eu sempre vinha com preto e branco e ele com suas cores. Eu monstros, ele flores. Bolinhos, chás, um café, e só felicidade. Sonhos todos tão lindos, reais.  O cheiro do café se misturava com o da grama verde, e o vento que balançava os meus cabelos com confetes coloridos, brilhando com os raios do sol se pondo. Mas isso ainda não era o nosso. Eram só o que gostaríamos que fosse. O pouco que tínhamos, um copo dividido, um suco de caixinha, bolinhos  salgados de queijo, e um outro doce recheado de chocolate. Sendo realista nada saiu como nós pensamos, mas foi muito melhor quanto imaginamos. O passeio na beira-mar, sentadinhos na grama, perto do mar, vendo o sol, muitas outras pessoas juntas, crianças correndo, tudo isso se fez melhor que qualquer coisa que pensamos, porque éramos somente nós dois naquele dia, mesmo com tudo que veio antes, e o que estava alí naquela hora.


Expostos.

29dez13
“Continuo pensando que se tudo o que entendemos por amor
é a ânsia de sermos amados, nossa condição é deplorável.”
(C.S. Lewis – Os quatro amores)

Era uma colcha de retalhos de onde desfazia cada nó de linha muito delicadamente. Cada um era como uma vida, que ele matava ao descruzar, mas a morte era dentro de si, num gesto desesperador, sentia que era necessário o fim, ou em alguns casos, o fim era ditado. Faria desses, uma imposição, um punhal fincado no peito e torcido, dilacerando todo e qualquer resquício de alegria que pudesse ter existido enquanto bombeava sorrisos da felicidade que sentira.

Enquanto trabalhava em novas histórias, de verdades e mentiras que ele inventava pelas ruas da cidade, olhava o alto dos prédios de olhos cerrados, buscando a queda de um corpo qualquer que fosse matéria em jornal. Buscava o movimento, da queda, buscava a serenidade dos olhos dispersos em dor profunda da vítima, do indivíduo que saltara. Já ouvira sobre histórias. Aconteceu na Vidal Ramos com a Trajano, poucos viram o corpo em pleno ar, aqueles que contam não sabem se foi rápido demais ou simplesmente invisível a queda, lembram somente o estrondo, o baque, e muito grito. O corpo esfacelado ao chão. Buscava, além. O sentimento de liberdade que o ato gerara. De alguma forma, conseguiu sentir, uma leve brisa percorrer pelo rosto, seria essa a mesma que passara pelos poros do anjo, que em livre, cortara as janelas do prédio as suas costas.

Estava há dias brigando com o fim. Cortaram suas raízes, um pouco de si. Das suas crenças e verdades inventadas para se satisfazer do mundo que criara. Como diria em outro dia, mal sabia ele, do tamanho dessas histórias, que contara para tantos, de tantas formas, que enquanto descosturava os nós se perdia por entre eles, e formavam-se novos enquanto ele não sabia quais eram mais os que ele havia dado o ponto. E perdia sempre muito mais do que dava. Não podia reclamar os seus direitos, pois os deveres nunca foram devera cumpridos. Portanto, seguia. Derramando pétalas do jardim. Pétalas de girassóis. Pétalas amarelas, por ora amarelo queimado pelo sol forte que anda acabando e transformando os tempos. Em outro momento elas eram tão lindas, o verde do talo era vivo, e fiapos indicavam a juventude daqueles botões. Hoje nem mais as abelhas, bêbadas, imbuídas em néctar e em busca do pólen para suas vidas, tão zumbidas, visitavam os brotos que se arcavam em direção ao chão.

Sentia que cada um desses escritos era uma parte dele que morria. Cada memória resgatada, para compor mesmo que uma mentira completa, era uma história inventada dos seus sentimentos de vida, levando embora algo que construiu e guardou com certo carinho num canto dentro dele. Que para retirada era como entrar numa cirurgia, abria cada parte marcada por caneta, como mapas onde indicava um tesouro a cavar. Dali tirava um trecho de si, uma fotografia, um verso, pessoas e pessoas. Sentimentos tão diversos, e tão dispersos, que juntos o formavam como ele imaginava ao se olhar no espelho. Tantas vidas passadas sobre a nau que segue por mares quaisquer com destino à Caronte.

Por sorte, ou poderia dizer por um ocorrido inusitado, estava no fim de mais uma dessas histórias que ele inventara, que começou com uma luta infindável entre o consenso da razão e o impulso do coração. E ao término o consumira muito mais do que imaginou, criando em si um câncer já em estado terminal. Sem cabelos, com olheiras enormes, e a carne em osso. Daquele espírito acabado, continuava a pensar em como se desfazia, em doses nada homeopáticas, matando cada sentimento, lembrança, qualquer coisa que poderia para amenizar a doença que se tornou. Enquanto caminhava pelas ruas da cidade pensava muito sobre os corpos que se jogaram dos altos, pensava se o intuito era ultrapassar os sete palmos de terra, ou uma forma de acalmar as alfinetadas do coração que sangrava como conta gotas, agonizando, sem saber quando a última ia pingar. Mas esse pouco, foi tudo que sobrou ao ouvir o último pingo, sem saber que era, o ponto final dessa história.


(trecho)

Os dedos tilintavam qualquer coisa no volante do carro. O que será que ele anda pensando, tão concentrado, será que tá pensando em mim? Em como me falar algo que lhe incomoda? O que será? Esse silêncio todo me mata de uma forma que eu não consigo me esquivar, ele me prende dos pés à cabeça. Estou tentando me lembrar agora como é que foi que isso tudo começou, onde foi que deixei as coisas correrem sem rumo e sem que eu tentasse parar.

Lembro  que eu o conheci meio assim, falante, calado. Por vezes ele ria. Outras falava com certa grosseria. Era o jeito de ser, meio brincalhão, com pensamentos normalmente complexos, emaranhados sem pé nem cabeça, que te davam um nó, ou tão simples que o riso não cabia, em si. Mas esse eram  momentos raros, quando o sorriso dele próprio iluminava tudo ao redor  que era dor que causava de tão lindo, tão mais puro que o normal.

E então em tom de Si bemol menor, todo o mundo escurece quando tu sequer tem me olhado mais, ou me dado um pouco de atenção.


Incolor

25mar12

cerrou o punho e chorou.
chorou toda lágrima
que não lhe cabia mais no peito.

e gritou, gritou tão alto
tentando se fazer ouvir,
que só os surdos o ouviram.

do jardim de girassóis,
viu murchar um a um,
e cada pétala cair ao chão.

perdeu a razão e esvaziou
a alma de brilho e cor,
da parte que sobrou.

 

ps. para Patricia Machado